Ultimamente, venho pensando muito sobre o que faz com que eu me identifique com outra pessoa, sem me impor nenhuma resposta. Apenas tento sentir o que emana das relações que possuo. Além da liberdade de expressão e respeito peculiares, descobri no som que ouvi (e vi) no blog do Shock que a resposta está nitidamente na palavra identificação... mas de quê?
Identificação de alma. É, sim, outro verbete que precisa de delimitação para nosso intelecto, mas que não precisa de uma palavra para os sentimentos e a intuição.
Identificação transcendente a toda explicação lógica, com possíveis similaridades com valores, com objetivos de vida (por mais separados que sejam os caminhos), com jeitos e risadas. Identificação com lágrimas que agora correm aqui por causa do sorriso que nasce da alma mesmo: mais uma vez, faço o refino das minhas vontades e vislumbro o que realmente me faz bem.
A responsabilidade pela vida me faz bem, assim como qualquer atitude para criar condições melhores de cada viver. Identifico-me, pela alma, com quem compartilha desse sentimento... e sinto que os gozadores eternos andam em dimensões diferentes da minha caminhada - e eu não quero nem devo parar para trocar qualquer coisa com eles, pois não me patrocinam nenhuma sorte de evolução para minhas vontades escolhidas lucidamente, todo dia.
Gosto da luta, gosto do conflito dialogado, gosto do esforço e da dedicação. Não crio, contudo, obstáculos para que minha vida seja conflituosa, não. Mas não me embaraço diante de uma barreira: se desnecessária, ignoro-a; se necessária, conquisto-a.
Há alguns consideráveis anos já escolho minhas batalhas com vistas ao que me faz bem. Em retorno, o universo me traz, todo dia, pessoas inabaláveis que compartilham essa mesma ideia. Mas não conversamos sobre; apenas sentimos. E ajudamo-nos. É uma parceira silenciosa, constante e enriquecedora. Se não for assim, eu prefiro ficar longe.
Em algumas ocasiões, no entanto, encontro-me com os gozadores, aqueles que fogem de um obstáculo, que não se impõem perante a vida, que não se constróem nem para si mesmos. Apenas se abandonam ao curso do rio ou param à sua margem para um trago. E só. Gozam a vida. Não são mais, nem menos. Mas diferentes de mim. E sei que não vou acrescê-los em nada; e vice-versa. Mostram-se a não-identificação, o meu oposto.
Mas a existência desses últimos não me abala, mas sim me permite a refinação dos meus intentos.
Mostram o que eu não quero para mim. E, por isso, agradeço.
Se beber, não dirija. Se dirigir, não beba. Se dirigir e beber, não culpe nada alheio a si.
Se beber e não dirigir, não culpe nada alheio a si por suas alcoolices.
Se beber e não dirigir por causa de sua timidez, não busque conversa comigo. Considero (talvez erroneamente) pessoas verdadeiras as que não precisam de nada além de sua naturalidade para poder se relacionar. Pessoas que usam o álcool como impulsionador de liberdade não me apetecem.
Se beber e não dirigir por dias contíguos, assuma sua responsabilidade de conter seu possível vício e de gastar seu dinheiro em algo tão passageiro e potente gerador de dores de cabeça (físicas ou metafóricas).
Se beber e não dirigir por meses ou anos a fio demasiadamente, não se arrependa por ter diluído sua consciência: você teve escolha, a cada momento. Ou se arrependa, podendo mudar sua atitude. Ou se arrependa, mantendo seu comportamento leviano e lamentando-se contra o mundo por sua promiscuidade etílica.
Abuse moderamente dos artifícios à sua disposição. Que nada se sobreponha à importância de sua própria vida.
Nem de longe é a beleza de um homem que encanta a mulher. Para a sorte de vocês (ou azar, vai saber...), nosso barato é diferente, e pode ser definido, entre outras coisas, como "virilidade". Essa definição tem muito pouco a ver com coçadas supostamente discretas nos testículos, cuspidelas na sarjeta ou exaltação do sistema nervoso diante de 22 homens suados correndo no gramado, imbuídos do espírito de encaçapar a gorduchinha.
Vai muito além da testosterona exacerbada.
Tem a ver com autoconfiança, sempre. E com perspicácia, qualidade muito rara num homem. Ou você pensou que seria fácil? Não ligamos pra barriga, careca ou pneuzinhos, até porque sabemos muito bem que nada disso atrapalha, tanto quanto o seu oposto pode ser absolutamente desprovido de encantos se não vier acompanhado de um perfil psicológico substancioso. Mas o que afinal de contas isso quer dizer, nunca te explicaram. Então lá vai.
Voltemos à virilidade.
Acho que poucas coisas nesta vida são mais eróticas e provocantes do que a inteligência. E quem a tem também possui senso de humor - porque somente os inteligentes não levam nada muito a sério e sabem se divertir mesmo com as intermináveis chatices cotidianas. Então temos inteligência e senso de humor, que somados à malícia (outro atributo dos neurologicamente privilegiados) arrebatam as mulheres e tornam um homem ainda maior aos nossos olhos. Porque não basta pregar a gente na parede. Isso todo ser munido de um bom falo é capaz. É preciso, para se diferenciar da varonil multidão, despertar nosso impulso primitivo racionalmente ativável.
Eternamente alunas.
Vocês olham uma mulher e pensam: "Meu Deus, que peitos, que nádegas, que cinturinha escultural, que boca mais lasciva...", e já começa o devaneio e o desejo de abater.
Nós, não. É impossível uma mulher (minimamente inteligente, claro) olhar para um homem esteticamente interessante e, sem nenhuma conversa, desejar ser invadida. Não. Eis aqui a diferença: nosso desejo de invasão não prescinde do intelecto(você já deve ter presenciado o olhar admirado e sensual das alunas de um grande professor). É preciso passar primeiro pela porta da razão para chegar à porta da alegria. E quanto melhor for o instrumento pensante do sujeito, maiores as chances de acolhida de um outro também interessante e mais mecânico agente.
Porque mulher gosta mesmo é de ser surpreendida, e isso só acontece quando se depara com alguém mais esperto do que ela. Todos sabem o jogo que estão jogando, esse interminável gato-atrás-do-rato que motiva nossa vidinha. E é preciso reconhecer as suas regras, o que requer maturidade [para mim, é o principal]. Homem que baba demais, no chance. Os que bajulam e não convencem, também. Os cafas, cruz-credo! A gente tem olho clínico pra eles e passa longe quando os vê. [...] Os posudos e pretensiosos não duram mais do que uma noite. Restam então os inteligentes.
Estes, sim, sabem do que somos feitas. E sabem que, por trás de toda empáfia, vaidade ou sedução, está um bichinho indefeso em busca de acolhimento, louco por um colo. A virilidade está nisso, na consciência masculina de que não somos assustadoras nem lascivas, mas apenas mulherzinhas assustadas [eu não diria assustadas, mas sedentas por uma boa parceria] e ávidas por um olhar que nos descubra. E nos devore, de preferência.
Tu estás aí, eu sei, mas não sei se tu sabes que eu estou aqui. Levas minha imagem e meu calor para ti tão intensamente que me leva a questionar se preferes mais a minha representação à minha carne e ao que tudo ela pode produzir. Eu te vejo aí - só não consigo te tocar. E, assim, não consigo fazer com que tu me toques. Ficas rodeando, cantarolando, escrevendo, pintando formas e estruturas que estão arraigadas em ti, mas não sinto que me alcanças. Não sinto que me sentes.
E eu lanço minha nebulosidade decodificada no teu colo e tu, mais uma vez, silencias. E continuas, parece que como um diálogo interno, entre você e minha representação, enquanto eu remanesço olhando a cena e não entendendo. Cheia de tantos mimos para te presentear, só me abrirei quando eu sentir que estás, de fato, fitando a mim, e não ao meu fantasma, pois não saberás o que segurar se olhar para um norte diferente.
Sem falar que podes te perder aí dentro, enquanto admiras algo que eu não vejo, o que pode te levar a perder o que há aqui comigo.