terça-feira, 19 de outubro de 2010

dói

Senti o cheiro quente da comida, desliguei a calculadora e, tranquilo - apesar de cansado de um dia todo de trabalho, sentei-me à mesa.
Falei para ela, que caminhava às minhas costas, trazendo o último prato da refeição e colocando-o à mesa:
- Não acredito que teu irmão tenha te tratado daquele jeito, querida.
- Mas tu é igual a ele!!!
- ... ??? Eu??? Como assim???
- Na primeira oportunidade que tens, tu me critica na frente dos outros!!!
- Mas... mas quando eu te critiquei?
- Com os teus pais, naquele vez lá na praia: tu me falas...
- Espera, espera, espera: vais falar de novo sobre aquela história? Mas já não tínhamos resolvido? Vais querer lavar quantas vezes a mesma roupa?
- Tu é igual a ele...
- Mordes a tua língua porque eu não te critiquei, mulher! Apenas dei minha opinião!!!
- Tua opinião??? Ficas me recriminando na frente dos outros!
- Mas, quando? - perguntei enquanto me dirigia à pia para lavar a louça.
- Quando tu me recriminou dizendo que não era para eu falar sobre a ex mulher dele.
- Meu deus do céu, mulher: estávamos sozinhos dentro do carro quando eu falei isso!!!
- Ah, tanto faz! 
- Tanto faz??? Como tanto faz??? Eu apenas dei minha opinião, dizendo que não é agradável para ele, que se separou recentemente, ficar ouvindo histórias da ex dele com outro homem. Só isso! Não tem fundamento a tua indignação... sentei aqui calmo, dando razão para ti e tu ainda me tratas desse jeito?
- ... falaste tudo que tinhas para falar?
Joguei o prato na pia, fechei com raiva a porta da geladeira, bravejando que engolir, literalmente, aquele tipo de tormento, eu não faria mais.
Voltei aos meus papéis, à minha calculadora e tentei me concentrar no trabalho.
Não consegui.
Fui ao computador. Não sabia o que fazer. Mesmo com a porta fechada, ouvia aquela mulher falando todos os tipo de loucura, especialmente os referentes aos antigos relacionamentos dela. Coloquei os fones de ouvido. Eu não merecia aquilo.
Quando vi minhas lágrimas na mesa, comecei a chorar.
Como mostrar a alguém que ela se equivoca ao tratar mal o outro, se a motivação dela está tão encrostada na alma?
Não tem como abrir ninguém se este não estiver propício ao entendimento.
Resta agir. Agir comigo mesmo. Agir de forma diferente.
Dói.
Por isso, estou aqui.

...


Ah, querido, o que eu tenho a te dizer?
Digo que é difícil conviver com pessoas que não enxergam, que não sentem que a vida é feita a cada segundinho, a cada pequena escolha, a cada olhar, respirar. A vida é agora e todos a criamos. Infelizmente, poucos têm essa consciência - o que, aparentemente, dá-nos mais responsabilidade. A responsabilidade de manter tudo em equilíbrio, na paz e na agradabilidade.
Mas não dominas o mundo. Por mais que te usurpes para criar, por ti mesmo, um clima amistoso, o que se esconde dentro da alma de teu interlocutor, esse que desconhece a criação, vai emergir com uma força que vai dominá-lo e, pior, vai te esmurrar. Quando caído estiveres, ele vai te chutar. Quando tentares levantar, ele vai te cuspir. E quando quiseres respirar, ele vai tentar tirar o teu ar.
E vai conseguir simplesmente porque você não estava armado.
Então, vale a pena se armar?
Não: vale a pena conviver com pessoas acordadas, conscientes, desarmadas e cujos monstros interiorizados conheçam - ou não. Mas com pessoas conscientes, vale a pena deixar o coração aberto.
E a responsabilidade do universo não é tua. É nossa. 

Desculpa... queria tanto poder te abraçar agora... 

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